Saudações, alunos reais e virtuais!
Hoje, ao invés de comentar várias questões de uma prova, comentarei apenas uma questão da prova de Analista Legislativo do concurso do Senado, que foi aplicada em 2008 pela FGV. Mas, claro, aproveitarei para fazer comentários sobre a matéria cobrada!
Para que possamos fazer a questão, copiarei os trechos do texto necessários.
Questão: Assinale a alternativa que desempenhe, no texto, função sintática idêntica à de possível (L.7)
a) ágeis (L.49)
b) inassimiláveis (L. 18)
c) vitais (L. 63)
d) ampla (L.31)
e) importante (L. 5)
RESPOSTA:
A primeira coisa a ser observada é a seguinte: o enunciado pede para que encontremos a alternativa que exerça a mesma função sintática do termo destacado.
Quando falamos em função sintática, referimo-nos ao papel desempenhado pela palavra ou pelo termo na oração. São exemplos de funções sintáticas: sujeito, predicativo do sujeito, objeto direto, objeto indireto etc.
Não confunda função sintática com classe morfológica. A classe da palavra diz respeito à sua natureza, e não à função que ela exerce. São classes morfológicas: substantivo, artigo, pronome, adjetivo, conjunção, numeral, preposição, interjeição, advérbio e verbo.
Vejamos o trecho do enunciado:
Esse pacto, talvez o mais importante de nossa história republicana, ensejou a eleição da chapa Tancredo Neves/José Sarney, por intermédio do Colégio Eleitoral, e tornou possível, de forma pacífica, a passagem do regime autoritário para o Estado democrático de Direito.
Em um período tão comprido como esse, o ideal é tirarmos tudo o que não faz diferença para analisarmos somente o essencial. Além disso, colocar a frase na ordem direta ajuda muito!
Esse pacto, talvez o mais importante de nossa história republicana, ensejou a eleição da chapa Tancredo Neves/José Sarney, por intermédio do Colégio Eleitoral, e tornou possível, de forma pacífica, a passagem do regime autoritário para o Estado democrático de Direito.
Organizando o que não está cortado na ordem direta, temos:
S OD Pred. OD
[Esse pacto] tornou a [passagem] [possível].
O verbo tornar pode, como vemos pelo exemplo acima, ser um VTD. Nesse caso, no geral, apresentará, além do OD, um predicativo do objeto, termo que expressa uma característica daquele a que se refere. Possível, então, exerce a função de predicativo do OD na frase que serve como nosso paradigma.
E como fazer para diferenciar o predicativo do objeto de um adjunto adnominal? Duas formas:
1. Na teoria: o predicativo do objeto é termo que complementa o objeto conferindo a ele uma característica, uma qualidade, um atributo. Não pode ser retirado da oração; o ajunto adnominal, por sua vez, é um termo acessório, que qualifica ou define um nome (sendo que este pode estar exercendo função de OD) e que pode ser retirado da oração sem prejuízo de sentido.
2. Na prática: troque o nome por um pronome. Se você conseguir substituir todo o termo por um pronome, é sinal de que os qualificadores que acompanham o núcleo do termo são adjuntos adnominais. Se não conseguir substituir tudo por um pronome, é sinal de que, na verdade, você tem dois termos, sendo um deles o predicativo do objeto, e não somente um termo cujo núcleo é acompanhado de adjunto(s) adnominal(is). (Atenção: naturalmente, essas observações só valem quando estamos analisando a função de termos que qualificam o OD. Do contrário, não há que se falar em predicativo do OD!).
Vejamos exemplos:
Eu comi o bolo gostoso.
Eu o comi.
No exemplo acima, podemos substituir todo o termo bolo gostoso, que é o OD, pelo pronome pessoal o. Isso é sinal de que a palavra gostoso não é um termo independente, mas sim um adjunto adnominal ligado ao núcleo do OD (bolo).
O adjunto adnominal, sozinho, não faz um termo. Ele somente acompanha núcleos de outros termos de natureza nominal (sintagmas nominais). Observemos:
Sujeito Predicado
Maria chegou.
A bela Maria chegou.
Na prima oração, você tem o sujeito Maria, que aparece desacompanhado de adjuntos adnominais. Na segunda oração, o termo Maria continua sendo sujeito, mas vem acompanhado de adjuntos adnominais (A e bela). Vejam que os adjuntos adnominais, quando são inseridos na oração, não criam um novo termo, mas simplesmente acompanham um existente. Assim, nos dois casos da tabela, o termo inteiro que exerce a função de sujeito pode ser substituído pelo pronome ela (Ela chegou).
Continuando, depois te ter comido o bolo, o sujeito dará sua opinião sobre ele:
Eu considerei o bolo gostoso.
Eu o considerei gostoso.
Nesse caso, o pronome o é capaz de substituir somente o bolo (OD), devendo o termo gostoso ser repetido. Isso acontece porque o OD é constituído somente por o bolo, sendo a palavra bolo seu núcleo e o artigo o um adjunto adnominal. Gostoso é predicativo do objeto, um termo separado do OD, que o qualifica. Sendo assim, não pode estar contido no pronome que representa o OD.
A frase do enunciado fica assim:
Esse pacto tornou a passagem possível.
Esse pacto a tornou possível. (possível não pôde ser substituído pelo pronome junto de a passagem – é predicativo do objeto).
Passemos, agora, à análise das alternativas da questão, em busca do outro predicativo do objeto.
Letra a: ágeis
O mais criativo foi, sem dúvida, o estabelecimento dos juizados especiais, cíveis e penais, que aproximaram a Justiça da população e tornaram mais ágeis as decisões de interesse de maior parcela de brasileiros em questão relevante, como a defesa de seus direitos.
Organizando (o pronome relativo “que” retoma “juizados especiais” e funciona como sujeito de “tornaram”):
S OD Pred. OD
[Os juizados especiais] tornaram [as decisões] [mais ágeis.]
Os juizados especiais tornaram-nas mais ágeis. (não está contido no pronome nas).
Mais ágeis é predicativo do objeto.
Letra b: inassimiláveis
Daí a inserção de matérias inassimiláveis em qualquer Constituição (…).
Inserção é substantivo abstrato e de matérias inassimiláveis é seu complemento nominal (veremos a diferença entre adjunto adnominal e complemento nominal no próximo post!).
Como o termo a que se refere inassimiláveis sequer é OD, não há como confundi-lo com predicativo do OD. Inassimiláveis é adjunto adnominal de matérias.
Inassimiláveis é adjunto adnominal.
Letra c: vitais
S OD
[A economia] consagrou [princípios vitais]: (…)
A economia consagrou princípios vitais.
A economia os consagrou. (vitais está contido no pronome os – é adjunto adnominal, e não predicativo do OD).
Vitais é adjunto adnominal.
Letra d: ampla
Feitas as ressalvas, não é exagero afirmar que a Constituição de 1988, batizada “Constituição Cidadã” pelo presidente Ulysses Guimarães, ofereceu ao povo brasileiro a mais ampla Carta dos direitos individuais e coletivos e o mais completo conjunto de direitos sociais que o país conheceu.
Organizando:
S OI OD
[A Constituição] ofereceu [ao povo brasileiro] [a mais ampla Carta (...)]
A Constituição ofereceu ao povo brasileiro a mais ampla Carta.
A Constituição a ofereceu ao povo brasileiro. (o termo destacado foi completamente substituído pelo pronome a. Logo, fora o seu núcleo – Carta – são todos adjuntos adnominais, inclusive “ampla”).
Ampla é adjunto adnominal.
Letra e: importante
Esse pacto, talvez o mais importante de nossa história republicana, ensejou a eleição da chapa Tancredo Neves/José Sarney, por intermédio do Colégio Eleitoral (…)
O termo pacto pode ser subentendido antes de mais importante, de modo que importante seria seu adjunto adnominal.
Importante é adjunto adnominal.
RESPOSTA: letra A.
Para quem quiser ler o texto completo, deixo um link do site da Academia Brasileira de Letras: http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?from_info_index=31&infoid=8257&sid=622
Quem quiser ter acesso à prova completa, basta ir ao site http://www.pciconcursos.com.br e procurar pela prova de Analista Legislativo – Processo Legislativo – Senado Federal – FGV – 2008.
Espero que tenham gostado e que voltem na quinta-feira para verem a diferença entre adjunto adnominal e complemento nominal!
Abraços!